🇺🇸 O que move os preços
A política de ovos dos EUA em 2026: da emergência à aplicação da lei
Com os plantéis recompostos e os preços em queda, a agenda de Washington para os ovos em 2026 saiu da crise de oferta e foi para os tribunais: uma ação antitruste contra os maiores produtores, uma contestação fracassada à lei californiana livre de gaiolas e um plano de vacinação que nunca saiu da gaveta.
· 6 min de leitura
Dados principais (ao vivo)
Em boa parte da Ásia, 2026 foi um ano de escassez de ovos. Nos Estados Unidos, foi o contrário. Os plantéis de poedeiras se recuperaram, as detecções de gripe aviária no primeiro trimestre foram menores do que um ano antes e os preços no varejo caíram com força. Em sua projeção de setembro, o Serviço de Pesquisa Econômica (ERS) do USDA previu que os preços dos ovos no varejo terminariam 2026 cerca de 29% abaixo de 2025. Superada a emergência de oferta, a política federal para os ovos passou a outra pergunta: não como conseguir mais ovos, mas se a disparada de preços havia sido justa e quem define as regras de criação das galinhas.
O contexto do mercado
A recuperação apareceu nos números oficiais. Segundo dados do USDA, a dúzia de ovos custava em média cerca de US$ 2,25 no varejo em abril, mais de 60% abaixo de um ano antes, e a produção da primavera superou a de 2025. O ERS informou que as frangas de reposição eram suficientes para cobrir tanto a renovação normal dos plantéis quanto as perdas com a gripe aviária. Os preços voltaram a subir no fim do verão, 3,5% de julho para agosto, mas ainda ficaram cerca de 23% abaixo do mesmo mês do ano anterior.
O caso antitruste
A medida de maior peso veio em 30 de junho. A Divisão Antitruste do Departamento de Justiça moveu uma ação civil em um tribunal federal de Iowa contra três dos maiores produtores de ovos do país, Cal-Maine Foods, Versova e Hickman's Egg Ranch, e anunciou ao mesmo tempo propostas de acordo, com a adesão de 17 estados. O governo alegou que, entre junho de 2022 e março de 2025, as empresas coordenaram um grande número de ofertas de compra com pouca chance de virar negócio para elevar as cotações da Urner Barry, que influenciam o que supermercados e restaurantes pagam.
Pelos acordos, as empresas pagarão juntas US$ 3,3 milhões aos estados e doarão cerca de 53 milhões de ovos a bancos de alimentos. Ficam proibidas de discutir estratégia de ofertas ou preços com concorrentes e terão de se submeter a auditorias semestrais e a programas de conformidade aprovados pelo governo federal. As empresas negam irregularidades e afirmam que foi a gripe aviária, e não coordenação, que elevou os preços. Organizações como a Farm Action argumentaram que os valores eram pequenos diante dos lucros do setor durante a disparada. Os acordos ainda dependem de aprovação judicial.
A briga pelas gaiolas
Uma segunda frente envolveu a legislação de bem-estar animal. O Departamento de Justiça havia processado a Califórnia, argumentando que suas regras de alojamento de galinhas, incluindo a Proposição 12, encareciam os ovos em todo o país. Em 18 de março, um juiz federal extinguiu a ação por entender que o departamento não demonstrou legitimidade para processar, sem julgar o mérito. Assim, as exigências californianas de criação livre de gaiolas continuam em vigor. Uma ação federal semelhante contra a lei livre de gaiolas de Michigan enfrenta as mesmas dúvidas.
O episódio mostra como o preço do ovo virou veículo de uma disputa maior sobre o poder dos estados de fixar padrões agrícolas. Para o consumidor, o resultado prático em 2026 é que nada muda: as regras que definem como as galinhas são alojadas no maior estado consumidor continuam de pé.
A vacina que ficou na prateleira
A terceira questão é a que mais deve pesar na próxima disparada. A política americana continua baseada no abate: plantéis infectados são eliminados e os produtores, indenizados. Um grupo de trabalho do setor apresentou um plano de vacinação direcionada de poedeiras contra a gripe aviária em estados de alto risco, com vacinas licenciadas, testes regulares e a manutenção do abate de qualquer plantel infectado. A pedido do USDA, também redigiu um piloto menor, restrito a um único estado.
Em maio, esse piloto havia sido apresentado, mas não aprovado; um de seus autores descreveu o esforço como paralisado. O principal obstáculo é o comércio. Exportadores de frango de corte temem que a vacinação leve outros países a restringir as aves americanas, e o plano manteria os produtos de aves vacinadas no mercado interno, salvo acordo diferente com os parceiros comerciais.
O que observar daqui em diante
Os ovos baratos de 2026 se devem a um ano calmo de gripe aviária, e não a uma mudança na forma como os Estados Unidos lidam com a doença. As próprias projeções de primavera do USDA previam nova alta dos preços no atacado perto do fim do ano, com a volta da demanda sazonal, e a temporada de migração do outono traz de volta o risco de surtos. O gráfico acima acompanha o preço dos Estados Unidos neste site. Se os preços voltarem a subir neste inverno, as perguntas levantadas em 2026 sobre poder de mercado, regras de bem-estar e vacinação voltarão junto.